Migalhas também são pão

Quarta-feira, Maio 07, 2008

... Ou talvez não (2)


Depois de ter recebido a história do post anterior, fui chamado de urgência para dar a Unção dos Doentes a uma jovem de 20 anos.

Encontrei uma mãe despedaçada. A filha tem um gravíssimo problema cardíaco. Está em pré-coma. Aos 3 anos teve um linfoma; aos 7, teve leucemia. Há 10 anos que o problema cardíaco apareceu e se foi agravando. E agora, lá está ela deitada numa cama, cheia de máquinas que a mantêm viva (artificialmente?). Vivem sós as duas: o pai abandonou-as há muitos anos.

"Porquê, meu Deus? Porque é que me fizeste isto a mim? Eu não aguento mais. Se a minha filha morrer, eu também quero morrer. Já não tenho mais razões para viver. Deus esqueceu-se de nós. Abandonou-nos. Já nem Ele me (nos) pode valer!"

Quase já sem esperança, uma pequena intervenção cirúrgica possibilita o prolongamento da vida. Por uns dias? Por muitos? Ninguém é capaz de ter uma certeza. Uma pequena luz ao fundo do túnel aparece para aquela mãe. Agora aguarda-se que apareça um coração para transplante.

Mas a dor é tanta! A solidão, o abandono, a incerteza, a revolta...

Quem poderá valer a esta mãe e a esta filha?

Uma amiga, mãe duma colega de estudo, está sempre presente. Acompanha, acaricia, sofre em plena comunhão, reza. Dizia-me esta amiga: "Já sofri muito com uma doença da minha filha mais nova. Mas nada que se compare com o que estou a sofrer neste momento."

Quem poderá vir em socorro destas três mulheres?

Terça-feira, Maio 06, 2008

Uma história ou talvez não (1)


Enviaram-me esta "história" por internet. De certeza que já muita gante a conhece. Mas não resisto a colocá-la aqui:

"Ela deu um pulo assim que viu o cirurgião a sair da sala de operações. Perguntou-lhe:

'Como é que está o meu menino? Ele vai ficar bom? Quando é que eu o posso ver?'

O cirurgião disse:

'Tenho pena. Fizemos tudo, mas o seu filho não resistiu.'

Ela perguntou:

'Porque é que as crianças pequenas têm cancro? Será que Deus não se preocupa? Onde estavas Tu, Deus, quando o meu filho necessitava?'

O cirurgião perguntou:

'Queres estar algum tempo com o teu filho antes de ele ser transportado para a universidade? Uma das enfermeiras irá sair dentro de alguns minutos com o corpo dele.'

Ela pediu à enfermeira para ficar com ela enquanto se despedia do filho. Passou os dedos pelo cabelo ruivo do seu filho.

'Quer um caracol do cabelo?' perguntou a enfermeira. Abanou com a cabeça a dizer que sim. A enfermeira cortou o cabelo e colocou-o num saco de plástico.

Ela disse à enfermeira: 'Foi ideia do Jimmy doar o seu corpo para a universidade. Ele disse que talvez pudesse ajudar outra pessoa. No início, eu disse que não. Mas o Jimmy disse: 'Mãe, eu não vou necessitar do meu corpo depois de morrer. Talvez possa ajudar outro menino a ficar mais um dia com a sua mãe. '... O meu Jimmy tinha um coração de ouro. Estava sempre a pensar nos outros. Sempre disposto a ajudar se ele pudesse.'

Depois de ter passado a maior parte dos últimos seis meses no hospital, ela saíu de lá, hoje, pela última vez. Colocou o saco com as coisas do seu filho no banco do carro, ao lado dela. Se foi difícil a viagem para casa, muito mais difícil foi entrar na casa vazia. Levou o saco com as coisas do Jimmy, incluindo o cabelo, para o quarto do seu filho. Começou a colocar os carros e as outras coisas no quarto, exectamente nos locais onde ele sempre os teve. Deitou-se na cama dele, agarrou na almofada e chorou até se deixar adormecer.

Era quase meia noite quando acordou e, ao lado dela, estava uma carta. Abriu-a.

'Querida mãe.

Eu sei que vais ter muitas saudades minhas. Mas não penses que me vou esquecer de ti, ou que vou deixar de te amar, só porque eu não vou estar por perto para te dizer 'amo-te'. Eu vou amar-te para sempre. Um dia vamos estar juntos de novo. Mas até chegar esse dia, se quiseres adoptar um menino para não ficares tão sozinha, tudo bem. Ele pode ficar com o meu quarto e as minhas coisas para brincar. Mas se decidires adoptar uma menina, talvez ela não goste das coisas que nós rapazes gostamos. Vais ter que comprar bonecas e outras coisas que as meninas gostam. Não fiques triste a pensar em mim. Este lugar é mesmo porreiro. Os avós vieram ter comigo assim que eu cheguei, para me mostrarem este lugar. Mas vai demorar muito tempo para eu ver tudo. Os anjos são mesmo fixes. Eu adoro vê-los a voar. E sabes uma coisa? O Jesus não se parece nada como se vê nas fotos. Embora que, assim que O vi, logo O reconheci. Ele levou-me a visitar Deus! E sabes uma coisa? Sentei-me no seu colo e falei com Ele, como se eu fosse uma pessoa importante. Foi nessa altura que eu Lhe disse que queria escrever esta carta para ti, para te dizer adeus e tudo o mais. Mas eu já sabia que não era permitido. Mas sabes uma coisa, Mãe? Deus entregou um papel e a sua caneta pessoal para eu poder escrever esta carta para ti. E acho que é o anjo Gabriel que te vai entregar esta carta. Deus disse para eu responder a uma das perguntas que tu Lhe fizeste: 'onde estava Ele quando eu mais precisava'? Deus disse que estava exactamente no mesmo sítio onde estava quando o seu Filho foi crucificado. Ele estava presente exactamente da mesma maneira como está com todos os seus filhos. Mãe, só tu é que consegues ver o que eu escrevi; mais ninguém. As outras pessoas vêem este papel em branco. É mesmo fixe, não é? Agora, eu tenho que dar a caneta de volta a Deus para Ele poder escrever no seu Livro da Vida. Esta noite vou jantar na mesma mesa com Jesus. Tenho a certeza que a comida vai ser boa. Ah!... Já me estava a esquecer: já não tenho dores, o cancro já se foi embora. Ainda bem, porque já não podia mais e Deus também não podia ver-me assim. Isso foi quando Ele enviou o Anjo da Misericórdia para me vir buscar. O anjo disse que eu era uma encomenda especial! O que dizes a isso?

Assinado com amor, de Deus, Jesus e de Mim.' "

Sexta-feira, Abril 25, 2008

Amizades sinceras


Várias causas contribuíram para o seu internamento. Uma vida de amargura, de solidão. O seu corpo é o seu instrumento de trabalho e o seu ganha-pão. No intervalo de cada cliente, e com o dinheiro adquirido, lá se ia injectar; para esquecer? Não importa por agora. Dois filhos já lhe foram 'tirados'. A família desprezou-a por completo.

Agora, deitada numa cama, não tem consciência do local onde se encontra e muito menos do seu estado de saúde. Tem por perto os profissionais de saúde. Uma religiosa vem visitá-la. Conhece-a 'da rua'. Também vem uma colega da rua e um cliente. Estas são as suas amizades sinceras. Vêm mesmo sem ela ter consciência de que vêm. E choram. Amizade sincera. Esta é a sua família.

Quinta-feira, Abril 24, 2008

Testamento vital



Conheço pessoas que fizeram o seu "testamento vital". Livre e conscientemente assumem os últimos momentos da sua vida. Para que haja mais 'qualidade' e os últimos momentos não sejam um 'espectáculo degradante' que tantas vezes vemos por aí.

Eis o texto deste 'testamento' (tradução livre do espanhol):


". Quando chegar o momento em que não puder expressar a minha vontade acerca dos tratamentos médicos que me irão aplicar, desejo e peço que esta Declaração seja considerada como expressão formal da minha vontade, assumida de forma consciente, responsável e livre, e que seja respeitada como se tratasse de um testamento.

. Considero que a vida neste mundo é um dom e uma bênção de Deus, mas não é o valor supremo e absoluto. Sei que a morte é inevitável e põe fim à minha existência terrena, mas, a partir da fé, creio que ela me abre o caminho para a vida que não acaba junto de Deus.

. Por isso, eu peço que, se por uma doença chegar a uma situação crítica irrecuperável, não me mantenham a vida por meio de tratamentos desproporcionados ou extraordinários; que não se me aplique a eutanásia activa, nem que se me prolongue abusiva e irracionalmente o meu processo de morte; que me sejam administrados os tratamentos adequados para paliar o sofrimento.

. Peço igualmente ajuda para assumir humana e cristãmente a minha própria morte. Desejo poder preparar-me para este acontecimento final da minha existência em paz, com a companhia dos que me são queridos e o consolo da minha fé cristã.

. Subscrevo esta Declaração depois duma madura reflexão. E peço que todos os que tiverem de cuidar de mim, respeiteis a minha vontade. Estou consciente de que vos peço uma grave e difícil responsabilidade. Precisamente para a partilhar convosco e para vos atenuar qualquer possível sentimento de culpa, escrevo e assino esta Declaração."


Que vos parece?

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Uma nova experiência (4)

Porquê?
É a pergunta que me vem à mente sempre que penso nas horas que passei no último dia de estágio no INEM.
Porque é que uma grandíssima parte das chamadas que recebemos são de pessoas que vivem em solidão?
De várias camadas etárias. Mas, para o final do dia e princípio da noite, as pessoas idosas não se cansavam de ligar a pedir ajuda. "Estou doente". "Sinto-me mal". "Acho que vou morrer". "Parece que o meu coração pára". "Acudam-me que me sinto aflito". "Mandem-me depressa uma ambulância". "Salvem-me antes que eu acabe com a minha vida".
Porquê? Em que sociedade é que estamos? Quais as nossas prioridades? Qual a nossa escala de valores? Será que estamos a atender um cãozinho de estimação ou um gatinho, enquanto deixamos no esquecimento um ser humano que, por acaso, até é nosso familiar ou nosso vizinho? Porquê? Porquê?
Um abraço enorme, do tamanho do universo, a todos(as) os(as) que atendem as chamadas do 112 no INEM. Admiro-vos. A vossa paciência. O vosso profissionalismo. O vosso afecto. Depois de tantas horas só a ouvirem misérias humanas, é maravilhoso ver a vossa presença de espírito no atendimento a cada caso (único, pessoal, diferente de todos os outros). Obrigado em nome de tantos e tantas que já foram salvos(as) por cada um de vós. Admiro-vos pela vossa capacidade de 'encaixe' em situações tão diferentes umas das outras.
Admiro-vos, a todos vós que trabalhais no INEM: VMER, CBR1, SIV, CODU. Médicos, Enfermeiros, Técnicos...
Imensamente grato pelas horas de estágio que me proporcionastes.

Terça-feira, Abril 08, 2008

Uma nova experiência (3)

Uma ambulância. Dois técnicos. Doze horas de serviço. A correr, que é preciso acudir com urgência, porque os casos também são urgentes. São seres humanos que estão em causa. É a vida que está em causa.
O pulsar duma cidade onde tanta gente passa despercebida. Onde tantos vivem sem ser notados. A solidão, o desespero, a fome, a droga...
Uma ressaca duma quase over-dose, um fim de semana sem comer seja o que for e a viver na rua há já muitos meses.
O marido que, ao acabar a semana, diz que se vai separar; os comprimidos, a desilusão, o mundo que desaba duma só vez sobre os ombros, a falta de apetite que leva a estar tanto tempo sem comer...
Um acidente de viação de alguém que está a iniciar a vida, e a esperança dum futuro melhor...
A solidão que se faz dor, dentro do carro num parque...
Os sorrisos de quem se sente agradecido, de quem teve alguém que cuidou.
Os segredos que se dizem no meio de tanta dor.
A alegria do dever cumprido. A felicidade transbordante de ter servido.
A entrega e a amizade dos técnicos.
Uma cidade onde choviam gotas de dor misturadas com alguns raios de sol.
A minha cidade. Que hoje me apareceu mais bonita.

Sexta-feira, Abril 04, 2008

Uma nova experiência (2)

Durante esta primeira experiência na VMER, tinha como intenção ver; analisar as situações; experimentar. Mas não descartava uma atitude mais interventiva como padre, onde pudesse dar um apoio espiritual.
A oportunidade surgiu. Depois de chegarmos ao local para socorrer uma pessoa, estavam algumas pessoas junto à ambulância. O médico e o enfermeiro entraram na ambulância para socorrer o doente. Fiquei na rua com as pessoas. Eu levava o colete do INEM. A esposa do doente, assim que me viu, aproximou-se logo de mim e agarrou-me com toda a força. Apertou-me a mão com toda a energia que tinha. Encostou a sua cabeça ao meu peito (até ao fim nunca deixou de estar apoiada no meu peito). Começou a falar. Estava com muita ansiedade. Desabafou. Ela também estava a sofrer muito. Procurei acalmá-la. Fui conversando e ouvindo os seus lamentos. Sentei-a numa cadeira. Dei-lhe água a beber. E ela ia desabafando. Queria saber o que se estava a passar na ambulância. Eu ia-lhe explicando conforme sabia. Chegou uma neta dela, mas ela não confiava na neta: ela não sabia nada; só eu é que sabia. A pouco e pouco começou a ficar mais calma. Até que ficou 'normal' (como se fosse possível que isso acontecesse!). Só ao fim é que ela ficou a saber que eu era padre (não partilho as reacções que houve). Dei o meu melhor no aspecto psicológico e espiritual.
Regressados à base do INEM, conversámos um pouco (o médico, o enfermeiro e eu). Foi-me dito que a grande dificuldade destas situações é a família e os amigos. Enquanto que os técnicos estão ocupados com o doente, não há ninguém que atenda os familiares; estão 'desamparados' Eles também se encontram doentes e necessitados de ajuda.
Não poderá ser esse um papel importante para um assistente espiritual? Sabemos como as pessoas com fé, nestes momentos, recorrem ao mais profundo de si mesmas. Creio que haverá aí lugar para alguém que os atenda, os oiça, e esteja presente como companheiro de jornada.
Depois, na viagem para o hospital, há muito espaço para estar com o doente. Consciente ou não, há sempre oportunidade para, também com ele, manifestar o apoio espiritual. Sabemos como a presença não é feita tanto de palavras, como de 'estar com'. Uma mão na mão pode fazer muito. E, uma pessoa aflita não tem medo seja de quem for; nem do padre. O que ela quer é alguém que a ajude a sair da situação em que se encontra. Alguém que esteja com ela no momento difícil pelo qual passa.
Creio que esta experiência pode continuar. Disso vos irei dando notícias.